-- Oooooiiii...
-- Socorro! Socorro!
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socorro!
Os moradores do bairro da Pedreira, durante o primeiro quartel deste século, ouviam, cheios de medo, altas horas da noite, aqueles gritos horrorosos e angustiantes.
O primeiro gritava um estridente oooooiiiii..., característico de habitantes de áreas rurais ou de selvas, que serve para avisar que alguém está chegando ou a sua simples presença; segundos após, ouvia-se os pedidos de socorro de alguém que estivesse... estivesse... os qualificativos angustiado, temeroso, horrorizado, apavorado, qualquer um deles que se use não diz o bastante do que expressava o grito: talvez fossem todos eles juntos e alguma coisa mais ainda.
Guapindaia Assu de Moraes, velho morador da Pedreira, é quem narra a presente história. Segundo ele, até hoje o fato é contado de boca em boca, porém são poucos os ainda vivos que tiveram oportunidade de ouvir os famigerados gritos, mesmo porque naquela época a Pedreira não era o populoso bairro que é hoje, como, também, pelas muitas dezenas de anos que já se passaram...
Aquela época, ano de 1925, Guapindaia criança, a Pedreira, como a maior parte da cidade, não possuía luz elétrica, nem qualquer outro tipo de iluminação: o bairro, à noite, vivia na mais completa escuridão, que fazia poucos se aventurarem fora de suas casas. As noites enluaradas quebravam mais o aspecto soturno: era quando se colocavam cadeiras às portas e os rapazes saíam a ver suas namoradas.
Porém, noite escura ou de luar, ouvia-se:
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socorro!
E, embora saíssem grupos de pessoas a ver o que era, nada encontravam.
Somente os gritos, a ecoar na noite.
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socorro!
Nestes momentos, os que ouviam os gritos sentiam gelar o sangue nas veias. E, se a noite era enluarada, acabava com todo o seu romantismo: não foram poucos os corajosos que se despediram apressadamente de suas amadas...
Assim eram as noites pedreirenses do início do século XX, até que um dia...
Antes, porém, interrompamos a história aqui e recuemos no tempo...recuemos... recuemos meio século... um século... século e meio... estamos no último quartel do século XVIII.
Quem conhece a Pedreira hoje, com a avenida Pedro Miranda asfaltada e iluminada, o mesmo acontecendo com suas principais travessas, não a reconheceria naquele longínquo fim de século. Quem, hoje, vê as quadrilhas, os pássaros e os bois nos festejos juninos, os ranchos carnavalescos durante a quadra de Momo, as boites e dançarás noturnos - isto tudo tornando-a conhecida como o bairro do Samba e do Amor, ou simplesmente a Pedreira do Samba e do Amor - não reconheceria, na viagem de tempo que fizemos, o imenso igapó de selva virgem. Sim, porque só naquela altura Santa Maria de Belém do Grão-Pará começava a se expandir naquela direção e só aí se iniciava o desbravamento do bairro cantado por Bruno de Menezes, Jaques Flores, Nilo Franco e tantos outros escritores e cronistas da terra.
E a Pedreira deixava de ser floresta virgem nos fins do século XVIII...
Como sabemos o fato? Ele foi contado pelo avô de Guapindaia, que contou ao pai de Guapindaia, que contou ao Guapindaia, que nos contou...
Nordestinos vindos das várias capitanias aqui chegavam, entre eles, o avô de Guapindaia, originário do Piauí. Estavam todos engajados na derrubada de árvores de grande porte, enfrentando os perigos de animais selvagens e do verdadeiro pantanal que era a área.
E Guapindaia informa que as árvores derrubadas eram transformadas em achas-- toros rachados em quatro partes -- e vendidas a estancieiros de lenha ou a padarias, que as usavam em seus fornos para o fabrico de pães, ou ainda a carvoeiros, que as empilhavam e construíam "caieiras" (fornos primitivos que transformavam a lenha em carvão).
Figura - Em uma sala, em volta de uma mesa, quatro pessoas olham assustadas para uma mulher que está em pé e gesticulando.
Vendiam seu produto, posteriormente, às donas de casa, numa época em que os fogões domésticos ou eram à lenha ou a carvão, nem se sonhando com fogões a querosene ou a gás.
Nesse tempo, imperava a lei da selva, ou seja, a lei do mais forte. Enquanto os lenhadores trabalhavam honestamente, procurando, com seu esforço, ganhar o pão de cada dia, havia os ladrões de lenha, que a subtraíam sempre que aqueles se descuidavam. Quando eram flagrados na prática desonesta, travavam-se verdadeiros duelos, onde apareciam em cena o terçado 38, a faca tipo americana, a peixeira e até mesmo o machado. Os mortos eram sepultados no local ou então simplesmente serviam de pasto aos urubus....
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socoooooorro!
E em pleno século XX, século e meio após as cenas acima descritas, continuavam os gritos dos lenhadores da Pedreira.
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socoooooorro!
O espiritismo kardecista, na época, já estava mais ou menos difundido em Belém. E, numa noite, local onde hoje se situa a travessa Timbó, perímetro compreendido entre a Visconde de Inhaúma e a Marquês de Herval, mais conhecido como "Baixa Verde", realizava-se uma sessão espírita. Era presidida por D. Pena, famosa preta velha do bairro.
Nesse momento, perturbando os trabalhos, ouviu-se:
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socoooooorro!
D. Pena concentrou-se, fez suas orações, solicitando que os presentes fizessem o mesmo. E, todos concentrados e orando, D. Pena invocou o espírito perseguido.
Sem a fazer esperar, o espírito baixou num dos médiuns, dando seus horrorosos gritos de socorro, semelhantes aos que eram ouvidos pelo bairro.
-- Socorro! Socoooooorro!
Os presentes esqueceram a concentração e estavam prestes a se levantar da mesa. Porém D. Pena solicitou calma e orações, a fim de doutrinar o espírito sofredor. Em seguida, pediu ao espírito que relatasse a causa de seu sofrimento.
E todos, espantados, ouviram, então, quando o espírito, através do médium, relatou que, há cerca de 150 anos, quando de sua última encarnação, era lenhador e encontrara um ladrão surrupiando sua lenha.
Fez justiça pelas próprias mãos, matando o larápio. Mais tarde, em um outro duelo, foi morto. E desde aí o espírito daquele que ele matara vivia perseguindo-o, a fim de vingar-se. O espírito encerrou seu relato pedindo aflito, pelo amor de Deus, que não o abandonassem à ira de seu antagonista.
D. Pena começou a doutriná-lo. Mas assim que iniciou, bem em frente a casa, em plena escuridão:
-- Oooooiiiii... oooooiiiii...
Era o horripilante grito de guerra do espírito vingador. Ninguém mais se conteve: o espírito que estava incorporado desincorporou no mesmo instante, subindo mais que depressa; os médiuns esqueceram as orações e a concentração e saíram na carreira, o mesmo fazendo a própria D. Pena.
E durante muitos anos ainda continuou-se ouvindo na Pedreira:
-- Oooooiiiii... oooooiiiii...
-- Socorro! Socoooooorro!
Amedrontados, diziam os habitantes:
-- É o grito dos lenhadores...!
Mais tarde, com a evolução da cidade e o desenvolvimento da Pedreira do Samba e do Amor, com a chegada da luz elétrica e o crescimento populacional do bairro, aos poucos foram desaparecendo os horríveis gritos.
Mas, até hoje, nas rodas de conversa noturna, sorvendo uma cana com limão, nos carteados ou dominós, ou ainda quando se contam as visagens e assombrações da cidade, aparece sempre um velho morador do bairro que relembra o grito dos lenhadores da Pedreira, com os inomináveis:
-- Oooooiiiii...
-- Socorro! Socorro!
Walcyr Monteiro
VisagenS e Assombrações de Belém
Belém, 3ª edição, BASA, SEMEC/MOVA, 2000.
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