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Entrevista com o Presidente da ASCEPA: Lourival Ferreira do Nascimento, nascido em 28/10/1967.
"Vim de família humilde, mas nós batalhamos bastante para conquistarmos as coisas que acreditávamos".
Em 1991, Lourival ingressou em uma das maiores universidades públicas do Estado do Pará, a UEPA, no curso de Pedagogia. "Nasci com atrofia do nervo ótico. Quando eu tinha 14 anos, essa atrofia assumiu uma proporção exagerada e eu comecei a ter problemas na escola. Abandonei por três anos e só voltei em 1987, já no sistema de
supletivo, liquidando o ensino médio em 1990, ingressando na UEPA e na UFPA em 1992, sendo que nesta última fui aprovado no curso de Letras”.
“Porém, duas semanas depois, precisei abandonar o curso da UFPA, porque eu trabalhava como operário, embalando soro na Indústria Biológica Farmacêutica da Amazônia (IBIFAM), que veio a falir em 1996”.
“Em 93, saí da IBIFAM, por conta da vida acadêmica e por ter começado a me envolver com a luta sindical, passando a reivindicar melhorias salariais".
ASCEPA.COM.BR: Você era filiado a algum partido político?
LOURIVAL NASCIMENTO: Não, comecei a trilhar esses caminhos por pura convicção mesmo, não tinha, na época, muita leitura de partidos políticos. O que havia, através do livro falado em fita cassete, era uma leitura sobre Marx, Engels, Gramsci, etc. Além de os meus irmãos Edivaldo, Elieusa também lerem muito para mim.
Por isso a IBIFAM reagiu fortemente contra mim, porque sempre se pensa que o deficiente deve estar ao lado do poder.
Em 96, concluí o curso de Pedagogia na UEPA, fazendo em 1999 uma especialização em educação e problemas regionais amazônicos. Já em 2001, entrei no curso de mestrado do NAEA, dissertando sobre planejamento e desenvolvimento sustentável, concluindo em 2003.

ASCEPA.COM.BR: É verdade que você foi o primeiro cego mestre do Estado do Pará?
LOURIVAL NASCIMENTO: As informações apontam para isso. Havia o Paulo Edu, que foi mestre e doutor, mas ele foi embora muito antes disso de Belém. Posso dizer sem pretensão, que na região Norte, nós não temos informações de pessoas cegas que tenham chegado a esse nível de ensino.
ASCEPA.COM.BR: Em 2002 o Senhor teve a oportunidade de entrar na Fundação Ford. Como isso se deu?
LOURIVAL NASCIMENTO: A fundação Ford trabalha com a formação de novas lideranças e cientistas políticos pesquisadores. A idéia é, em dez anos, formar 420 líderes no Brasil e em vários países do mundo. Então, eu fui o segundo cego do mundo a entrar nesse programa, o IFP. Por conta dele, estive em julho de 2003 nos Estados Unidos, passando quinze dias por lá, fazendo curso para justiça social e relações internacionais, na Escola internacional de treinamento.
Em 2004, Lourival ingressou na ASCEPA, na vice-presidência da entidade, sendo Antonio Carlos Júnior Presidente. Obteve grande destaque na função, vindo em 2006 a ser Presidente da associação. Em 2008, candidatou-se a reeleição pela necessidade de recondução.
ASCEPA.COM.BR: Por que você fala em necessidade de recondução?
Houve uma centralização dos rumos da ASCEPA em poucas mãos. Quando houve alguns problemas na recondução, as pessoas sentiram-se meio perdidas, pelo fato de eu não ter interesse de ser reconduzido. Na realidade, meu planejamento era tentar o Doutorado, inclusive fora do Estado, até mesmo fora do país, por apresentar uma boa relação com o pessoal da Ford. “Por isso, estou fazendo Inglês, sendo financiado pela Fubiktgh”.
Além disso, Lourival ocupa o cargo de coordenador do núcleo de produção Braille da Unidade Educacional Especializada José Álvares de Azevedo e de assessor pedagógico da equipe de educação especial na secretaria de educação do município de Belém.
Para quem pensa que acabou, tem mais. Esse incansável homem de luta ainda participa de dois grupos de pesquisa: um sobre educação inclusiva na UEPA, juntamente com a Professora Doutora Adriane Giugni e outro no Núcleo Pedagógico Integrado da UFPA (NPI, coordenado pela Professora Doutora Vanderléia Medeiros). "Muitas vezes as pessoas pensam que não dou atenção devida a determinados assuntos, é pelo fato dessas muitas ocupações trabalhistas".
Lourival Nascimento sempre simpatizou com os partidos da esquerda, mas nunca se filiou a nenhum deles.
ASCEPA.COM.BR: Quais são seus projetos e desafios atuais?
LOURIVAL NASCIMENTO: No campo da ASCEPA, acho que ela precisa desenvolver urgentemente a sua fonte de financiamento. Além disso, precisa descobrir a sua missão.
Lourival afirma que as pessoas ainda não possuem clareza sobre o assunto e que tem provocado algumas discussões para trilhar esses caminhos.
ASCEPA.COM.BR: A ASCEPA possui a orientação de alguma outra organização?
LOURIVAL NASCIMENTO: A ASCEPA está filiada a duas organizações nacionais: A FEBEC (Federação Brasileira de Entidades de e Para Cegos), em Brasília e a CBDC (Confederação Brasileira de Desportos para Cegos). Esta, por sua vez, está filiada a IIDC (Instituição Internacional de Desportos para Cegos), que está vinculada a OMC (Organização Mundial de Pessoas Cegas).
Lourival ratifica que a ASCEPA, juntamente com a FEBEC, estão vinculadas a UNLAC (União Latino-Americana de Pessoas Cegas). No campo pessoal, Lourival deseja, até 2010, dar início ao seu projeto de Doutorado, em busca de melhorar como pessoa e companheiro.
ASCEPA.COM.BR: Você já tem em mente o seu projeto de Doutorado?
LOURIVAL NASCIMENTO: Na minha dissertação de mestrado, trabalhei com sistema bancário nacional e sem pacto no BANPARÁ. Isso me trouxe uma série de conhecimentos, principalmente econômico.
ASCEPA.COM.BR: Sua graduação foi em Pedagogia. Por que essa vertente?
LOURIVAL NASCIMENTO: Ao entrar no NAEA, ingressei com o projeto de educação profissional, só que nós não tínhamos orientador nessa linha. Então, me empurraram para a economia, objetivando trabalhar profissionalização no sistema bancário nacional, que é o setor da economia mais qualificado.
ASCEPA.COM.BR: Na época, o que você achou dessa mudança? Conseguiu adaptar-se rapidamente?
LOURIVAL NASCIMENTO: Foi uma loucura! Depois que eu comecei a trabalhar com isso, vi que não tinha orientação suficiente para trabalhar só profissionalização, constatando que o BAMPARÁ, com o plano Real, havia sido o banco que mais tinha demitido na região metropolitana de Belém. Para vocês terem uma idéia, havia 1300 funcionários em 1994, passando em 2002 para 800. Foi um banco que passou por várias intervenções, pelo fato de possuir um desvio de mais de 17 milhões.
Lourival considera que sua dissertação foi muito rica, pois estava com o financiamento da Fundação Ford, chegando a ir em Brasília três vezes levantar documentos do Banco Central, levantar prestação de contas
do governo no TCE (Tribunal de Contas do Estado).
"Tive que fazer um trabalho bem árduo sobre o levantamento do banco o Estado, mas foi um trabalho bom, muito rico".
Lourival pretende fazer seu Doutorado, focalizando o crescimento da cidade de Belém, a partir do sistema bancário.
"O projeto está na metade, a vida administrativa não tem permitido
tanta reflexão".
ASCEPA.COM.BR: Voltando a falar sobre a ASCEPA, quais são as propostas da sua chapa para o novo pleito?
LOURIVAL NASCIMENTO: As propostas são muitas, mas a ASCEPA pretende trabalhar em parceria com a Oab, na orientação jurídica, buscar junto ao curso de Serviço Social da UFPA um perfil sócio-econômico dos associados, implementar alguns cursos de preparação para concursos, aulas de complementação para os deficientes visuais, na vida escolar destes. Há três projetos em andamento: um é a reformulação do auditório, inclusive já aprovado em emenda parlamentar da Deputada Estadual Regina Barata. Outro, trata da instalação de uma atividade de reabilitação na entidade, através do FBDH (Fundo Brasil de Direitos Humanos), trabalhando, sobretudo, a Orientação e mobilidade, o Braille e a Informática para pessoas cegas. O projeto tem o valor de R$25.000,00.
O terceiro projeto refere-se ao nosso investimento em cultura.
Trata-se do segundo encontro de músicos cegos, buscando um apoio do BASA e de um espaço como Margarida Schivasappa ou Gazômetro, dando maior visibilidade para a ASCEPA e para seus associados que se envolvem com a arte.
ASCEPA.COM.BR: Nas questões jurídicas, como o preconceito, tudo isso você pretende compartilhar a OAB?
LOURIVAL NASCIMENTO: Na realidade, gostaríamos de que a OAB trabalhasse mais na questão da orientação jurídica. Percebo que nos últimos anos, o deficiente visual evoluiu nas discussões sobre preconceito e discriminação, numa luta mais efetiva por políticas públicas. No entanto, há um grupo achando que o caráter reivindicatório da pessoa cega está se perdendo.
Lourival imagina que tudo seja uma questão momentânea. Para ele, os que possuem esse raciocínio, devem impregnar a objetividade da vida social com a sua subjetividade, para assim o movimento avançar.
"Quando todo mundo dá o melhor de si, isso é o melhor de nós".
ASCEPA.COM.BR: Que leituras da vida acadêmica, você procura praticar na vida pessoal, como profissional e presidente da ASCEPA?
LOURIVAL NASCIMENTO: Atualmente, tenho pesquisado muito sobre as características da pessoa cega, e, sempre que posso leio artigos e livros que me trazem alguma orientação.
Lourival gosta muito de romances literários, sobretudo os europeus.
e norte-americanos.
"Já li muita literatura nacional, principalmente Machado de Assis, Aluísio Azevedo, os realistas e naturalistas, mas tenho lido bastante os norte-americanos e italianos".
Lourival acha que o site da ASCEPA, vai possibilitar o canal de comunicação da entidade com o associado e com a rede mundial de computadores.
"Acho que ganharemos maior visibilidade, incentivando, inclusive, pessoas a escreverem artigos, notícias, etc, um espaço onde o associado possa se expor".
Ele já dá algumas sugestões: "Que se crie um link com a voz do associado e outro com notícias".
Lourival já tentou implementar um jornal da ASCEPA, chamado Em Relevo, onde o presidente possuiria uma coluna (Ponto de Toque), ressaltando que não poderia ser Ponto de Vista, pelo fato de o jornal ser destinado a pessoa cega.
Observa ainda que teriam mais duas colunas, uma denominada Depois do Açaí, que tratava de piadas, correio do amor e fofocas, e outra que se chamava Tocando a bola, uma coluna mais destinada ao desporto para cego.

Entrevistado por Paulo Sérgio Barbosa Ferreira e editado por Aguinaldo da Silva Barros

 

 

 

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