supletivo, liquidando o
ensino médio em 1990, ingressando na UEPA e na UFPA em 1992, sendo
que nesta última fui aprovado no curso de Letras”.
“Porém, duas semanas depois, precisei abandonar o curso da UFPA,
porque eu trabalhava como operário, embalando soro na Indústria
Biológica Farmacêutica da Amazônia (IBIFAM), que veio a
falir em 1996”.
“Em 93, saí da IBIFAM, por conta da vida acadêmica e por
ter começado a me envolver com a luta sindical, passando a reivindicar
melhorias salariais".
ASCEPA.COM.BR: Você era filiado a algum partido político?
LOURIVAL NASCIMENTO: Não, comecei a trilhar esses caminhos por pura
convicção mesmo, não tinha, na época, muita leitura
de partidos políticos. O que havia, através do livro falado
em fita cassete, era uma leitura sobre Marx, Engels, Gramsci, etc. Além
de os meus irmãos Edivaldo, Elieusa também lerem muito para
mim.
Por isso a IBIFAM reagiu fortemente contra mim, porque sempre se pensa que
o deficiente deve estar ao lado do poder.
Em 96, concluí o curso de Pedagogia na UEPA, fazendo em 1999 uma especialização
em educação e problemas regionais amazônicos. Já
em 2001, entrei no curso de mestrado do NAEA, dissertando sobre planejamento
e desenvolvimento sustentável, concluindo em 2003.
ASCEPA.COM.BR: É verdade que você foi o primeiro cego mestre
do Estado do Pará?
LOURIVAL NASCIMENTO: As informações apontam para isso. Havia
o Paulo Edu, que foi mestre e doutor, mas ele foi embora muito antes disso
de Belém. Posso dizer sem pretensão, que na região Norte,
nós não temos informações de pessoas cegas que
tenham chegado a esse nível de ensino.
ASCEPA.COM.BR: Em 2002 o Senhor teve a oportunidade de entrar na Fundação
Ford. Como isso se deu?
LOURIVAL NASCIMENTO: A fundação Ford trabalha com a formação
de novas lideranças e cientistas políticos pesquisadores. A
idéia é, em dez anos, formar 420 líderes no Brasil e
em vários países do mundo. Então, eu fui o segundo cego
do mundo a entrar nesse programa, o IFP. Por conta dele, estive em julho de
2003 nos Estados Unidos, passando quinze dias por lá, fazendo curso
para justiça social e relações internacionais, na Escola
internacional de treinamento.
Em 2004, Lourival ingressou na ASCEPA, na vice-presidência da entidade,
sendo Antonio Carlos Júnior Presidente. Obteve grande destaque na função,
vindo em 2006 a ser Presidente da associação. Em 2008, candidatou-se
a reeleição pela necessidade de recondução.
ASCEPA.COM.BR: Por que você fala em necessidade de recondução?
Houve uma centralização dos rumos da ASCEPA em poucas mãos.
Quando houve alguns problemas na recondução, as pessoas sentiram-se
meio perdidas, pelo fato de eu não ter interesse de ser reconduzido.
Na realidade, meu planejamento era tentar o Doutorado, inclusive fora do Estado,
até mesmo fora do país, por apresentar uma boa relação
com o pessoal da Ford. “Por isso, estou fazendo Inglês, sendo
financiado pela Fubiktgh”.
Além disso, Lourival ocupa o cargo de coordenador do núcleo
de produção Braille da Unidade Educacional Especializada José
Álvares de Azevedo e de assessor pedagógico da equipe de educação
especial na secretaria de educação do município de Belém.
Para quem pensa que acabou, tem mais. Esse incansável homem de luta
ainda participa de dois grupos de pesquisa: um sobre educação
inclusiva na UEPA, juntamente com a Professora Doutora Adriane Giugni e outro
no Núcleo Pedagógico Integrado da UFPA (NPI, coordenado pela
Professora Doutora Vanderléia Medeiros). "Muitas vezes as pessoas
pensam que não dou atenção devida a determinados assuntos,
é pelo fato dessas muitas ocupações trabalhistas".
Lourival Nascimento sempre simpatizou com os partidos da esquerda, mas nunca
se filiou a nenhum deles.
ASCEPA.COM.BR: Quais são seus projetos e desafios atuais?
LOURIVAL NASCIMENTO: No campo da ASCEPA, acho que ela precisa desenvolver
urgentemente a sua fonte de financiamento. Além disso, precisa descobrir
a sua missão.
Lourival afirma que as pessoas ainda não possuem clareza sobre o assunto
e que tem provocado algumas discussões para trilhar esses caminhos.
ASCEPA.COM.BR: A ASCEPA possui a orientação de alguma outra
organização?
LOURIVAL NASCIMENTO: A ASCEPA está filiada a duas organizações
nacionais: A FEBEC (Federação Brasileira de Entidades de e Para
Cegos), em Brasília e a CBDC (Confederação Brasileira
de Desportos para Cegos). Esta, por sua vez, está filiada a IIDC (Instituição
Internacional de Desportos para Cegos), que está vinculada a OMC (Organização
Mundial de Pessoas Cegas).
Lourival ratifica que a ASCEPA, juntamente com a FEBEC, estão vinculadas
a UNLAC (União Latino-Americana de Pessoas Cegas). No campo pessoal,
Lourival deseja, até 2010, dar início ao seu projeto de Doutorado,
em busca de melhorar como pessoa e companheiro.
ASCEPA.COM.BR: Você já tem em mente o seu projeto de Doutorado?
LOURIVAL NASCIMENTO: Na minha dissertação de mestrado, trabalhei
com sistema bancário nacional e sem pacto no BANPARÁ. Isso me
trouxe uma série de conhecimentos, principalmente econômico.
ASCEPA.COM.BR: Sua graduação foi em Pedagogia. Por que essa
vertente?
LOURIVAL NASCIMENTO: Ao entrar no NAEA, ingressei com o projeto de educação
profissional, só que nós não tínhamos orientador
nessa linha. Então, me empurraram para a economia, objetivando trabalhar
profissionalização no sistema bancário nacional, que
é o setor da economia mais qualificado.
ASCEPA.COM.BR: Na época, o que você achou dessa mudança?
Conseguiu adaptar-se rapidamente?
LOURIVAL NASCIMENTO: Foi uma loucura! Depois que eu comecei a trabalhar com
isso, vi que não tinha orientação suficiente para trabalhar
só profissionalização, constatando que o BAMPARÁ,
com o plano Real, havia sido o banco que mais tinha demitido na região
metropolitana de Belém. Para vocês terem uma idéia, havia
1300 funcionários em 1994, passando em 2002 para 800. Foi um banco
que passou por várias intervenções, pelo fato de possuir
um desvio de mais de 17 milhões.
Lourival considera que sua dissertação foi muito rica, pois
estava com o financiamento da Fundação Ford, chegando a ir em
Brasília três vezes levantar documentos do Banco Central, levantar
prestação de contas
do governo no TCE (Tribunal de Contas do Estado).
"Tive que fazer um trabalho bem árduo sobre o levantamento do
banco o Estado, mas foi um trabalho bom, muito rico".
Lourival pretende fazer seu Doutorado, focalizando o crescimento da cidade
de Belém, a partir do sistema bancário.
"O projeto está na metade, a vida administrativa não tem
permitido
tanta reflexão".
ASCEPA.COM.BR: Voltando a falar sobre a ASCEPA, quais são as propostas
da sua chapa para o novo pleito?
LOURIVAL NASCIMENTO: As propostas são muitas, mas a ASCEPA pretende
trabalhar em parceria com a Oab, na orientação jurídica,
buscar junto ao curso de Serviço Social da UFPA um perfil sócio-econômico
dos associados, implementar alguns cursos de preparação para
concursos, aulas de complementação para os deficientes visuais,
na vida escolar destes. Há três projetos em andamento: um é
a reformulação do auditório, inclusive já aprovado
em emenda parlamentar da Deputada Estadual Regina Barata. Outro, trata da
instalação de uma atividade de reabilitação na
entidade, através do FBDH (Fundo Brasil de Direitos Humanos), trabalhando,
sobretudo, a Orientação e mobilidade, o Braille e a Informática
para pessoas cegas. O projeto tem o valor de R$25.000,00.
O terceiro projeto refere-se ao nosso investimento em cultura.
Trata-se do segundo encontro de músicos cegos, buscando um apoio do
BASA e de um espaço como Margarida Schivasappa ou Gazômetro,
dando maior visibilidade para a ASCEPA e para seus associados que se envolvem
com a arte.
ASCEPA.COM.BR: Nas questões jurídicas, como o preconceito, tudo
isso você pretende compartilhar a OAB?
LOURIVAL NASCIMENTO: Na realidade, gostaríamos de que a OAB trabalhasse
mais na questão da orientação jurídica. Percebo
que nos últimos anos, o deficiente visual evoluiu nas discussões
sobre preconceito e discriminação, numa luta mais efetiva por
políticas públicas. No entanto, há um grupo achando que
o caráter reivindicatório da pessoa cega está se perdendo.
Lourival imagina que tudo seja uma questão momentânea. Para ele,
os que possuem esse raciocínio, devem impregnar a objetividade da vida
social com a sua subjetividade, para assim o movimento avançar.
"Quando todo mundo dá o melhor de si, isso é o melhor de
nós".
ASCEPA.COM.BR: Que leituras da vida acadêmica, você procura praticar
na vida pessoal, como profissional e presidente da ASCEPA?
LOURIVAL NASCIMENTO: Atualmente, tenho pesquisado muito sobre as características
da pessoa cega, e, sempre que posso leio artigos e livros que me trazem alguma
orientação.
Lourival gosta muito de romances literários, sobretudo os europeus.
e norte-americanos.
"Já li muita literatura nacional, principalmente Machado de Assis,
Aluísio Azevedo, os realistas e naturalistas, mas tenho lido bastante
os norte-americanos e italianos".
Lourival acha que o site da ASCEPA, vai possibilitar o canal de comunicação
da entidade com o associado e com a rede mundial de computadores.
"Acho que ganharemos maior visibilidade, incentivando, inclusive, pessoas
a escreverem artigos, notícias, etc, um espaço onde o associado
possa se expor".
Ele já dá algumas sugestões: "Que se crie um link
com a voz do associado e outro com notícias".
Lourival já tentou implementar um jornal da ASCEPA, chamado Em Relevo,
onde o presidente possuiria uma coluna (Ponto de Toque), ressaltando que não
poderia ser Ponto de Vista, pelo fato de o jornal ser destinado a pessoa cega.
Observa ainda que teriam mais duas colunas, uma denominada Depois do Açaí,
que tratava de piadas, correio do amor e fofocas, e outra que se chamava Tocando
a bola, uma coluna mais destinada ao desporto para cego.
Entrevistado por Paulo
Sérgio Barbosa Ferreira e editado por Aguinaldo da
Silva Barros